Uma década convalescendo
“J’aime la force, et de la force que j’aime, une fourmi peut en montrer autant qu’un éléphant.”
Stendhal - Rome, Naples e Florence
Após torcer todos meus panos de chão da última década, percebi que ainda escrevo como quem exorciza a sarna de um cão desvalido e rábido
- com sabão de enxofre e álcool canforado, desesperadamente procuro o
que ainda resta de carne malcomida dentre os vermes verborrágicos que
habitam minha pele. Tudo é estereotipia - só existo porque exitam
as estruturas, senão teria morrido de fome e doença - nem sexo, nem
overdose sequer - porque estes abundam e eu não gosto de degenerados.
Nunca tive um dia de tédio sequer. Muito menos na última década,
torcendo meus panos de chão. Anedonia não é tédio. Ascetismo de uns anos, também não é. Limpar a merda dos entes não-tão
queridos respingada propositadamente na parede, tomar socos na
mandíbula e distribuir sorrisos que deveriam ser genocídios - também são
coisas muito diferentes daquilo que suscita tédio, por mais subalternas
que sejam – ser subalterno dá qualquer coisa de angústia, enquanto o tédio provem da
satisfação, que aparece como um presente indesejado na cabeça do sujeito embisonhado. Eu ainda encontrei um pouquinho da minha carne de cão sarnento
na paz do ostracismo e na terapia de me converter em um pano de chão de
caráter não-sectário, meio subversivo nas estereotipias - não gosto de
nada assistemático. De tanto ver as gentes, viver condolências, partos e
castigar-me da alegria ébria de suposta leveza acidental, mais
me agarro às formas definidas, às rotinas, às estereotipias – me dá um
pouco de conforto póstumo, já que verti de ser pessoa para pano de chão.
Dez anos que me renderam a ausência das lágrimas, do desespero e a
possibilidade de viver em confinamento completo sem sofrer-me das
vontades minhas ou alheias. Eu gosto do meu café com leite, de ver os
pezinhos brancos das minhas crianças em seu andar de ganso – o mais
velho correndo e a pequena bruxuleante a se equilibrar segurando as
bolinhas coloridas, e por último não ter prostituido minha moralidade
por conta de nenhum souvenir barato. O orgulho de um pano de chão - não têm das minhas vontades, os vícios alheios. Não acho que as
três graduações que comecei e a carreira de sucesso dos meus colegas-bastão
pague isso. Meu orgulho, em minha função sanitária deu-me a graça dos livramentos. Com todo meu potencial precognito por testes - quase elegias priápicas em desvios padrão, virei um pano
de chão que limpa esperma, fezes e vômito de entes não-tão
queridos - fazendo vistas grossas para o primeiro da lista. Um pano de
chão não-sectário, um pano bem pano. As estereotipias me fizeram
retornar à pena – quase que como uma graça da casa . Miséria, doença e morte - o ostracismo liberou-me da samsara firulenta de minha geração debilóide. Que é o erro, senão alegoria?
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